Após denunciar racismo institucional, docente da Ufes é vítima de ação judicial

Publicado em 26 de Maio de 2026 às 19h34. Atualizado em 26 de Maio de 2026 às 19h41

A trajetória do professor Iguatemi Santos Rangel, docente do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), tornou-se mais um símbolo da resistência contra o racismo institucional e as tentativas de silenciamento no ambiente acadêmico. Coordenador do curso de Pedagogia EAD desde 2017, Iguatemi viu sua carreira ser alvo de manobras administrativas que, segundo ele, visavam excluí-lo da gestão.

Após conseguir o reconhecimento da “falha institucional”, Iguatemi foi processado judicialmente por uma então gestora da Ufes, que se sentiu ofendida com a acusação de racismo institucional. O docente foi condenado em primeira instância. Os advogados dele recorreram da decisão e o recurso será julgado nesta quarta-feira (27).

Entenda
O conflito central teve início com o Edital nº 046/2024, publicado pela Superintendência de Educação a Distância (Sead-Ufes). Ao contrário de outros editais lançados simultaneamente para cursos com coordenadores brancos, o documento do curso de Pedagogia introduziu mudanças inéditas: exigiu graduação específica na área - Iguatemi é formado em Educação Física - e retirou a pontuação por experiência prévia em coordenação EAD. O resultado foi imediato: o único coordenador preto entre os editais lançados tornou-se inelegível, enquanto os demais colegas foram reconduzidos sem dificuldades.

Para o professor Iguatemi, as alterações feriram os princípios de isonomia e razoabilidade. “Essas mudanças, em conjunto, resultaram na minha inelegibilidade para o processo seletivo, impossibilitando minha participação e continuidade na coordenação do curso, ao qual tenho me dedicado incansavelmente desde 2017”, afirmou o docente.

“O mais impressionante é que novas regras surgiram exatamente naquele contexto, onde tínhamos um professor, um único professor negro, que acabou sendo impedido de participar. Nós, pessoas negras, nós conhecemos muito bem esses métodos e mecanismos. Porque o racismo institucional quase nunca aparece dizendo nosso nome, ele se esconde atrás de ditais, de normas, de burocracia, de uma aparência de legalidade”, reforça Jacyara Paiva, 2ª secretária da Regional Leste do ANDES-SN e docente da Ufes.

A mobilização do Movimento Negro, de entidades sociais e a pressão de um parecer da Assessoria Jurídica Nacional (AJN) do ANDES-SN surtiram efeito. A Ufes reconheceu a “falha”, revisou o edital e Iguatemi pôde participar do processo, sendo reconduzido ao cargo. Ou seja, no âmbito da universidade, o docente teve sua denúncia reconhecida e acolhida.

No entanto, o racismo se reforçou por meio de uma ofensiva no Judiciário. A então coordenadora da Sead moveu uma ação por danos morais contra o professor, alegando que sua imagem foi “manchada” por denúncias de racismo e por uma charge publicada durante os protestos — charge esta que o professor nem sequer produziu. Iguatemi destaca que jamais citou o nome da gestora em suas manifestações, focando a crítica na instituição.

O docente conta, ainda, que a pessoa entrou com uma reclamação contra ele junto à administração da Ufes, alegando que estava se sentindo perseguida e insegura na instituição, por ser acusada de um comportamento racista que não condizia com sua postura. A universidade arquivou o caso por reconhecer que Iguatemi Rangel não tinha responsabilidade.

Porém, mesmo sem provas de que o docente tenha personalizado as acusações, e com o arquivamento do caso na universidade, a Justiça condenou Iguatemi em primeira instância, impondo-lhe o que ele chama de "mordaça" — uma proibição de falar sobre o assunto sob pena de multa. Além disso, o professor foi condenado a pagar uma indenização de R$ 3.000,00.

Para ele, a sentença é uma aberração. “Nossa justiça, ela tem raça, gênero e classe social. [...] Eu estou sendo processado por uma coisa que eu não fiz”, afirma.

O impacto do racismo
O episódio revela a urgência de rever as estruturas institucionais que protegem o "pacto da branquitude". Iguatemi relata que a situação causou danos profundos, como ansiedade e o questionamento de sua competência profissional. “O impacto nessa dimensão mais subjetiva quase é incalculável”, afirma.

“Eu tive a minha competência profissional questionada”, conta, lembrando ter ouvido, em reunião, que não o queriam mais no cargo. “Você sabe o que é ouvir isso? Com uma carreira consolidada, sem nenhuma intercorrência?”, acrescenta.

O docente conta que ajudou a estruturar o projeto pedagógico do curso, que foi ampliado de 5 para 19 polos, ofertando 400 vagas. “De repente, você é surpreendido, como se você descartável. ‘Olha, você agora não serve mais’”, relata.

Iguatemi coordenou todo o processo de ampliação do curso, captação de recursos através de edital da Capes, a seleção de docentes, tutores e estudantes. No entanto, quando chegou o momento de renovar de fazer um edital para conseguir uma bolsa de coordenador, ele “deixou de ter formação adequada para coordenar esse curso”.

“Eu falei: Peraí! Eu tenho a formação adequada para coordenar todo o processo de construção do PPC do curso. Submeter esse projeto, aprovar, submeter à Capes, fazer os processos seletivos, tudo. E, quando o curso começa a rodar, agora, ‘Iguatemi, me dá licença que agora vamos chamar alguém que tenha a competência para coordenar o curso’. O curso que eu já coordenava há mais de oito anos. Isso gerou um sentimento de revolta, mas também muita insegurança”, detalha.

O docente aponta ainda que o fato de ter sido condenado em primeira instância foi devastador. “Você ser condenado, para a gente que estuda Fanon, Sueli Carneiro, Achille Mbembe, os autores que vão discutir esse processo de invisibilização, de desumanização do negro e da negra, é algo incalculável. Não tem como ficar bem”, partilha.

Jacy, fica!
O caso de Iguatemi não é isolado na Ufes. No final de 2023, a professora Jacyara Paiva, foi alvo de perseguição política e ameaça de exoneração, motivada por sua atuação firme na fiscalização da Lei de Cotas. A campanha #JacyFica mobilizou a comunidade acadêmica, movimentos sociais, provando que a resistência negra é um compromisso coletivo.

“Quando sofremos racismo institucional, uma das primeiras violências é a tentativa de dizer que aquilo que vivemos “não foi racismo”. É assim que o racismo opera: relativizando dores, transformando exclusão em burocracia e violência em “mal-entendido”. Eu vivi isso em 2023 e 2024. E graças à atuação coletiva do movimento negro, do meu sindicato e de pessoas comprometidas com a justiça racial, houve enfrentamento e vitória. Ainda ouço algumas pessoas dizerem que ‘os casos são diferentes’. Sim, cada experiência tem suas singularidades. Mas os dois casos são racismo institucional. Somos da mesma universidade, sofremos violências em períodos próximos, tivemos nossos direitos e trajetórias colocados sob suspeita. E isso não é coincidência”, observa.

A diretora do ANDES-SN reforça a importância da união e da resistência na coletividade frente ao racismo. “Nós sofremos racismo, denunciamos o racismo institucional e, muitas vezes, acabamos atravessados por novas formas de punição quando rompemos o silêncio. É assim que as estruturas de poder tentam produzir silenciamento, mas há uma coisa que ainda não entenderam, nossa luta não vai parar. Seguiremos denunciando o racismo institucional porque o silêncio nunca protegeu o povo negro, o silêncio protege apenas o racismo”, afirma. “Seguimos denunciando, resistindo e aquilombando nossas lutas. Porque nossa experiência não será apagada pelo silêncio nem pela relativização”, conclui.

"Sou Docente Antirracista"
O enfrentamento a esses casos está inserido na campanha nacional “Sou Docente Antirracista”, lançada pelo ANDES-SN em 2024, para combater o racismo e as burlas às leis de cotas nas universidades, IFs e Cefets. O sindicato também aprovou, em janeiro de 2025 no seu 43º Congresso na Ufes, um protocolo histórico de enfrentamento ao assédio e ao racismo, visando criar mecanismos reais de acolhimento e punição para essas violências.

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