Há cinco anos, a cidade de Manaus (AM) viveu um caos sanitário provocado pela falta de oxigênio nos hospitais, em plena pandemia da Covid-19. Abandonada pelos governantes, a população enfrentou, em 14 de janeiro de 2021, uma corrida desesperada de familiares, amigas e amigos em busca de cilindros de oxigênio, na tentativa de salvar a vida de pacientes internados. O episódio segue marcado pela ausência de responsabilização efetiva de autoridades públicas e de empresas investigadas.
Durante o período pandêmico, muitas vidas foram ceifadas entre docentes, discentes, técnicas e técnicos em educação (TAEs), além de outras e outros profissionais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
À época, o país vivia sob o governo de extrema direita do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que negou a gravidade da pandemia, estimulou aglomerações quando a recomendação sanitária era o distanciamento social, atrasou deliberadamente a compra e a distribuição de vacinas e chegou a imitar e rir de pessoas com falta de ar — um dos sintomas mais graves da Covid-19.
No governo bolsonarista (2019–2022), a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (Adua – Seção Sindical do ANDES-SN) denunciou a omissão criminosa do então presidente no cumprimento do direito constitucional à saúde. As denúncias ocorreram por meio da produção de reportagens e lives informativas durante o período de lockdown, bem como pela participação ativa nos atos “Fora Bolsonaro”, realizados após a flexibilização das medidas sanitárias.
Em 13 de janeiro de 2021, um dia antes do agravamento da crise de oxigênio em Manaus, a seção sindical do ANDES-SN emitiu uma nota pública sobre a situação enfrentada no estado.
“A ADUA vem a público para responsabilizar o Estado brasileiro, na pessoa de seu governante maior, por negligenciar e sabotar as medidas sanitárias preconizadas pela Organização Mundial da Saúde para conter a tragédia humana e social da pandemia em curso, cujos efeitos mais devastadores se dão entre os socialmente mais vulneráveis: povos indígenas, população negra e classe trabalhadora, de modo especial os trabalhadores desempregados e os que sobrevivem da informalidade”, diz um trecho da nota.
Naquele momento, o ANDES-SN emitiu uma nota em solidariedade à população e denunciando o colapso na saúde do estado. “É importante ressaltar que todo o sofrimento que o povo amazonense vem vivenciando, sobretudo as famílias de menor poder aquisitivo e as populações indígenas e ribeirinhas, com um alto índice de contaminações, internações e mortes, chegando ao cúmulo do esgotamento do estoque de oxigênio nos hospitais do estado (insumo vital para o tratamento contra a doença), têm responsáveis diretos: a necropolítica negacionista, desarticulada, incompetente e criminosa do Governo Federal, chefiada pelo atual presidente da República, o genocida Jair Messias Bolsonaro. O pior mandatário da história do Brasil, na pior crise sanitária dos últimos 100 anos”, afirmou o Sindicato Nacional.
Ufam
O primeiro trimestre de 2021 foi um dos períodos mais avassaladores para a Ufam. Apenas nos três primeiros meses daquele ano, 61 pessoas da comunidade acadêmica faleceram. O “Memorial – Sementes da Ufam”, produzido pela seção sindical em 2021, homenageou 102 docentes, TAEs e estudantes da instituição que faleceram entre março de 2020 e março de 2021, período de maior impacto da pandemia, além de familiares de integrantes da comunidade acadêmica que também partiram.
“A Ufam foi a Universidade Federal que mais perdeu servidores, sofreu perdas irreparáveis nesse período fatídico. Destaque para o professor Osvaldo Coelho [fundador e ex-presidente da Adua SSind.] e Luiz Fernando [ex-diretor], dois lutadores incansáveis da linha de frente da Adua, cujas ausências ainda pesam em nossos corações. Que a história nos sirva de lição e que continuemos na luta em defesa da vida, da ciência, dos servidores, das servidoras e do serviço público”, afirmou Ana Lúcia Gomes, presidenta da Adua SSind.
Universidades públicas
O período evidenciou, ainda, a importância da ciência e das universidades públicas. Os hospitais universitários, por exemplo, atenderam mais de 85 milhões de pessoas em 2020, em diferentes frentes de apoio e enfrentamento à Covid-19. A média foi de 147 mil pessoas beneficiadas por mês em cada instituição.
Os dados são da pesquisa “Conhecimento e Cidadania: Ações de Enfrentamento da Covid-19 realizadas pelas IFEs”, publicada em 2021 e coordenada pelo Colégio de Gestores de Comunicação das Universidades Federais (Cogecom), da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). O levantamento contou com a participação de 48 das 69 instituições que integram a rede federal de ensino superior. Acesse aqui.
A atuação das universidades também foi destacada na revista Universidade e Sociedade, que trouxe como tema “Pandemia da Covid-19: trabalho e saúde docente”. “A atuação das universidades públicas demonstrou sua capacidade de resiliência e prontidão, promovendo parcerias interdisciplinares e intensificando o engajamento social. Esses esforços foram essenciais para garantir a proteção da saúde pública durante a pandemia”, afirma um trecho da edição. Leia mais aqui.
Ao refletir sobre o impacto histórico das pandemias, Ana Lúcia Gomes destacou que, apesar dos avanços científicos e do papel fundamental das vacinas na redução da mortalidade, a Covid-19 expôs fragilidades profundas na forma como a crise sanitária foi enfrentada no Brasil.
“O que tornou a Covid-19 diferente foi a negligência chocante do Governo Federal e Estadual diante dessa calamidade. O conhecimento científico foi posto à prova – e, pior, ignorado –, transformando a população amazonense em cobaia da mente ordinária, nefasta e desprezível do presidente Jair Bolsonaro e do governador Wilson Lima. Essas figuras foram decisivas para que a pandemia no Amazonas se convertesse em momentos de verdadeiro terror, com o Brasil todo assistindo ao colapso do sistema de saúde: pessoas morrendo asfixiadas pela falta de oxigênio, em cenas de dor inimaginável”, ressaltou a docente.
MPF
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para apurar a responsabilidade da União, do Estado do Amazonas e do município de Manaus pela crise do oxigênio registrada durante a pandemia da Covid-19. A informação foi repassada na sede do MPF, em Manaus, nessa quarta-feira (14).
Na coletiva, o MPF afirmou que o governo federal foi alertado em 28 de dezembro de 2020 sobre a escassez de oxigênio na rede pública de saúde da capital antes do colapso no sistema de saúde, indicando que houve tempo hábil para intervenções que poderiam ter evitado a tragédia.
De acordo com as investigações, o monitoramento das empresas fornecedoras e os avisos de órgãos locais já apontavam para o esgotamento dos estoques, mas a resposta da União foi considerada tardia e insuficiente frente à velocidade da crise.
Fonte: Adua SSind., com edição e acréscimos de informações de ANDES-SN